20091004
20090928
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BAIRRO ZINE 0.4
carta desd'o bairro
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(1) O BAIRRO JÁ ERA - triangulação espontânea
(2) SISTEMATIZAR FOMES - rumo ensaio
(3) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja
(4) AMORCÃO - teórico amorizações
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(1) O BAIRRO JÁ ERA - triangulação espontânea
Tento manter isto curto - tento ser rápido e manter isto limpo - sistematizar, ser lacónico, sintético, metódico, imediato. Sem ladainhas, sem confusões, aparelhos, figuras de estilo, rápido. Nada de pausas, deambulações, artifícios, artefícios, peregrinações pela palavra ou atavios de conceito, solto, simples, clean, sem dissertar, sem me perder e vos perder no processo. Sem intróito, nem outras perdidas, sem desvios, atavios, desafios, directo portanto. Breve, sem demasiadas palavras, sem prolixidade, objectivo, conciso, preciso, sem excesso de palavras. Sem ser inútil e cansativo, nem fastidioso, nada. Escrito automático, solto. Espontâneo.
Saí do bairro, o bairro já era mas se digo ainda que estou no bairro é porque o bairro é outro que não o Bairro, mas outro bairro qualquer bastante e também bairrista - e talvez ainda mais bairrista do que o outro bairro, o tal Bairro. Mas eu continuarei a responder sempre à pergunta que me dedicam, de onde vens, onde vives, com um mecânico, do Bairro. Serão os detalhes geográficos tão necessários para que nos saibam?
(2) SISTEMATIZAR FOMES - rumo ensaio
Ler. Comer. Dormir. Sexo. A curiosidade matou o homem e fê-lo querer mais e crer mais também. Porque grafamos homem se ao dizê-lo englobamos também a mulher? Ensaio linhas de livros por encadernar. Escreverei prefácios - só. Serei um eterno escritor de livros em construção. Operário em construção? Sempre - de linhas. E o conceito? Terá sempre que ser vencedor - sempre - conceituar conceptualmente rumos ao consumidor. Uma receita de sucesso em publicidade. E o que é a publicidade? É tudo na vida. A publicidade estimula a curiosidade, lês um livro porque o vês e comprarás imediatamente se a capa for atraente. Se surgir por sugestão - essa referência não passa de publicidade encapotada, é o anúncio por terceiros na verdade. Comes aquilo que saciou o olho, a comida confecciona-se para estimular este em primeiro, a publicidade aqui é ao palato via nervo ocular. Dormir, que engano. Adoraria não precisar, tanta hora perdida para depois retomar o dia e fechar o ciclo dormindo, mas isto em eterno retorno, sempre. O estímulo aqui é cultural - se bocejam ao meu lado, terei que bocejar também e nem o apercebo. Só depois de cumprido o abrir de boca. E sexo? Querem maior exemplo para a intervenção publicitária na errática vida do ser humano? A indumentária é essencial, os humores do corpo delicadamente escondidos sob perfume, o galanteio e o charme camuflados qb em espera de uso providencial, tudo estudado e calculado para a percepção do outro e para o encontro de corpos. É isto, está comprovado. O ser humano não passa de um publicitário. Quem surgiu primeiro então, a publicidade ou o publicitado?
(3) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja
Ah como odeio quem viaja constantemente, quem por aí anda percorrendo viajando o mundo, quem se move locomove por aí, como odeio quem me responde dizendo Paris - Moscovo - Fez fiz. Como utilizo eu aquela interjeição? Como me inflamo por tão pouco e depois o escrevo como apropriado? Se odeio quem viaja não odeio verdadeiramente quem o faz - detesto sim naquilo que se transforma. Não odeio a pessoa, invejo o viajante nela. E invejo sim, invejo - porque o quero também, porque me quero ver viajante também, concorrer em não sei quantos países por esse mundo e voltar dizer contar mostrar também a outros. Isto vi e percorri, construindo então enquanto o digo irónico um sorrisinho detestável de experiente e conhecedor caixeiro.
Da próxima vez que comigo partilharem uma viagem - e há sempre uma próxima, sempre há, milhares de viajantes nascem todos os dias e muitos a mim desaguam contando história de mil e uma noites - direi perfazendo uma mentira, já o fiz, já o vi, já conheço, já lá estive, é bonito sim, é interessante, desgostei daquilo, fui maltratado ali, inventando nomes de lugares e de ruas que serão impossíveis de verificar. Afinal, li o Cidades Invisíveis, por dá cá aquela palha é facílimo inventar cidades e história tirando-as do bolso, já construídas e tecidas em credibilidade.
(4) AMORCÃO - teórico amorizações
Diz-me tu se o amor não é por vezes amorcão? Se algo há que termina - naturalmente e por mais que se diga que tudo tenha terminado em bem, nunca isso é verdade. Pois se algo termina e o termo aqui é bem explícito - terminar - é porque é em estado de mal (estar, fé, dizer, etc...). Se acabasse em bem não acabaria - continuava. Pois se termina é porque mal estava e se bem estivesse, terminaria apenas na cama. Ponto.
A consciência de que o amor é cão - amorcão, aquilo a que chamo a uma forma de estar e de comportar e reagir após relações desavindas (aproximando-me ainda mais ao conceito digo que amorcão é esse estado de suspensão e afastamento dos outros - ou de agressividade sobre os outros, isto depende de quem se trata - em que nada ou muito pouco parece realmente interessar além do sentimento de desfasamento que temos sobre o/a tal com quem estávamos) - surge sempre após período de insatisfação, ou seja, imediatamente antes de terminar seja o que for que se tenha iniciado. E se insatisfeito se estava é porque - e ajudem-me aqui - algo estaria correndo mal! Bingo! E perdão então se me socorro do gerúndio para me debruçar sobre isto, mas é que é tão delicioso quanto é explícito. Vejamos um teste sobre as relações humanas. Vamos estando - revelador de que terminarão breve ou que se aguentam em relação mais ou menos atrozmente. O gerúndio é a melhor forma verbal para justificar aquilo que é passageiro ou efémero! É perfeito não o é?
E desculpem lá outra vez - ando a ler novamente Dostoievski e isso reflecte-se em deambulações de estilo!
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Paleta de som :.
Animal Collective > Peacebone
The Killes > Tape Song
Legenda da fotografia :.
Jogagueando com leds no Pai Tirano (antigo Animatógarfo), Bica, 092009
092009 Rafa
carta desd'o bairro
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(1) O BAIRRO JÁ ERA - triangulação espontânea
(2) SISTEMATIZAR FOMES - rumo ensaio
(3) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja
(4) AMORCÃO - teórico amorizações
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(1) O BAIRRO JÁ ERA - triangulação espontânea
Tento manter isto curto - tento ser rápido e manter isto limpo - sistematizar, ser lacónico, sintético, metódico, imediato. Sem ladainhas, sem confusões, aparelhos, figuras de estilo, rápido. Nada de pausas, deambulações, artifícios, artefícios, peregrinações pela palavra ou atavios de conceito, solto, simples, clean, sem dissertar, sem me perder e vos perder no processo. Sem intróito, nem outras perdidas, sem desvios, atavios, desafios, directo portanto. Breve, sem demasiadas palavras, sem prolixidade, objectivo, conciso, preciso, sem excesso de palavras. Sem ser inútil e cansativo, nem fastidioso, nada. Escrito automático, solto. Espontâneo.
Saí do bairro, o bairro já era mas se digo ainda que estou no bairro é porque o bairro é outro que não o Bairro, mas outro bairro qualquer bastante e também bairrista - e talvez ainda mais bairrista do que o outro bairro, o tal Bairro. Mas eu continuarei a responder sempre à pergunta que me dedicam, de onde vens, onde vives, com um mecânico, do Bairro. Serão os detalhes geográficos tão necessários para que nos saibam?
(2) SISTEMATIZAR FOMES - rumo ensaio
Ler. Comer. Dormir. Sexo. A curiosidade matou o homem e fê-lo querer mais e crer mais também. Porque grafamos homem se ao dizê-lo englobamos também a mulher? Ensaio linhas de livros por encadernar. Escreverei prefácios - só. Serei um eterno escritor de livros em construção. Operário em construção? Sempre - de linhas. E o conceito? Terá sempre que ser vencedor - sempre - conceituar conceptualmente rumos ao consumidor. Uma receita de sucesso em publicidade. E o que é a publicidade? É tudo na vida. A publicidade estimula a curiosidade, lês um livro porque o vês e comprarás imediatamente se a capa for atraente. Se surgir por sugestão - essa referência não passa de publicidade encapotada, é o anúncio por terceiros na verdade. Comes aquilo que saciou o olho, a comida confecciona-se para estimular este em primeiro, a publicidade aqui é ao palato via nervo ocular. Dormir, que engano. Adoraria não precisar, tanta hora perdida para depois retomar o dia e fechar o ciclo dormindo, mas isto em eterno retorno, sempre. O estímulo aqui é cultural - se bocejam ao meu lado, terei que bocejar também e nem o apercebo. Só depois de cumprido o abrir de boca. E sexo? Querem maior exemplo para a intervenção publicitária na errática vida do ser humano? A indumentária é essencial, os humores do corpo delicadamente escondidos sob perfume, o galanteio e o charme camuflados qb em espera de uso providencial, tudo estudado e calculado para a percepção do outro e para o encontro de corpos. É isto, está comprovado. O ser humano não passa de um publicitário. Quem surgiu primeiro então, a publicidade ou o publicitado?
(3) O EXCESSO DE VIAGEM - ensaio a uma inveja
Ah como odeio quem viaja constantemente, quem por aí anda percorrendo viajando o mundo, quem se move locomove por aí, como odeio quem me responde dizendo Paris - Moscovo - Fez fiz. Como utilizo eu aquela interjeição? Como me inflamo por tão pouco e depois o escrevo como apropriado? Se odeio quem viaja não odeio verdadeiramente quem o faz - detesto sim naquilo que se transforma. Não odeio a pessoa, invejo o viajante nela. E invejo sim, invejo - porque o quero também, porque me quero ver viajante também, concorrer em não sei quantos países por esse mundo e voltar dizer contar mostrar também a outros. Isto vi e percorri, construindo então enquanto o digo irónico um sorrisinho detestável de experiente e conhecedor caixeiro.
Da próxima vez que comigo partilharem uma viagem - e há sempre uma próxima, sempre há, milhares de viajantes nascem todos os dias e muitos a mim desaguam contando história de mil e uma noites - direi perfazendo uma mentira, já o fiz, já o vi, já conheço, já lá estive, é bonito sim, é interessante, desgostei daquilo, fui maltratado ali, inventando nomes de lugares e de ruas que serão impossíveis de verificar. Afinal, li o Cidades Invisíveis, por dá cá aquela palha é facílimo inventar cidades e história tirando-as do bolso, já construídas e tecidas em credibilidade.
(4) AMORCÃO - teórico amorizações
Diz-me tu se o amor não é por vezes amorcão? Se algo há que termina - naturalmente e por mais que se diga que tudo tenha terminado em bem, nunca isso é verdade. Pois se algo termina e o termo aqui é bem explícito - terminar - é porque é em estado de mal (estar, fé, dizer, etc...). Se acabasse em bem não acabaria - continuava. Pois se termina é porque mal estava e se bem estivesse, terminaria apenas na cama. Ponto.
A consciência de que o amor é cão - amorcão, aquilo a que chamo a uma forma de estar e de comportar e reagir após relações desavindas (aproximando-me ainda mais ao conceito digo que amorcão é esse estado de suspensão e afastamento dos outros - ou de agressividade sobre os outros, isto depende de quem se trata - em que nada ou muito pouco parece realmente interessar além do sentimento de desfasamento que temos sobre o/a tal com quem estávamos) - surge sempre após período de insatisfação, ou seja, imediatamente antes de terminar seja o que for que se tenha iniciado. E se insatisfeito se estava é porque - e ajudem-me aqui - algo estaria correndo mal! Bingo! E perdão então se me socorro do gerúndio para me debruçar sobre isto, mas é que é tão delicioso quanto é explícito. Vejamos um teste sobre as relações humanas. Vamos estando - revelador de que terminarão breve ou que se aguentam em relação mais ou menos atrozmente. O gerúndio é a melhor forma verbal para justificar aquilo que é passageiro ou efémero! É perfeito não o é?
E desculpem lá outra vez - ando a ler novamente Dostoievski e isso reflecte-se em deambulações de estilo!
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Paleta de som :.
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Legenda da fotografia :.
Jogagueando com leds no Pai Tirano (antigo Animatógarfo), Bica, 092009
092009 Rafa
20090927
&/&&(
IMPRESSÕES DESDE AS CIDADES IMPERIAIS

WIEN
Viajei já por três vezes até Viena este ano e encontrei-a por das três vezes que se separam no tempo de mais ao menos três meses entre cada visita, tão diferente de gentes, de cores e de formas que me pareceu três cidades distintas. Mas é Viena, essa belíssima cidade que foi a periclitante romana Vindobona, para se assumir religiosa católica medieval e depois orgulhosa capital do império - primeiro só seu e depois partilhado com os sempre destemidos húngaros.
Era essa vasta cidade imperial que dona de um império de inúmeros povos e línguas, multi e pluricultural muito além da tacanha lógica de um grande império germânico, que dominava a política europeia durante larga parte do Século XIX ao ponto de os seus exércitos e a sua influência serem apenas comparáveis às potências França, Inglaterra e Rússia. Os povos germânicos debatiam-se fragmentados em principados e até ao porvir da Prússia nunca foram um estado centralizado. A Espanha já era e Portugal nunca o fora a nível europeu. A Itália nunca existira ainda desde Roma. E a Turquia era demasiado não europeia. E Viena assumia-se então como ainda é, como ponto de passagem, de charneira, de chegada e de saída e de ligação entre o oriente e o ocidente europeus, cravada como jóia monumental entre uma imaginária linha divisória emocional entre eslavos e latinos e germânicos.
Cidade católica que não perdeu a sua base latina e sempre e ainda germânica também. É acima de tudo uma cidade musical e urbe pontilhada de palácios e templos. Viena, sempre romântica entre Alpes e Danúbio. O que segue a seguir não é mais que o catálogo do que fiz durante a minha primeira visita a Viena em Fevereiro de 2009. Estava-se então no Inverno e eu vi-a mais por dentro do que por fora de paredes, pois que o frio atacava em nevões e descia até 7 graus negativos. Voltei depois na Primavera e no Verão mas é do Inverno que me fica para sempre a primeira e mais demorada imagem desta cidade que também me conquistou para o seu seio.
Seguem os dias na cidade em formato rápido telegráfico :.
Dia 1
Visita à vasta St Stephans Cathedral, templo maior do catolicismo austríaco. Maravilhou-me o desenho no átrio em frente da catedral de uma basílica mais antiga. Bem ao estilo de Von Trier em Dogville, o que sobra desta é o contorno do seu volume, qual projecção no pavimento.
Tinha que penetrar na famosa cultura do café de Viena, na vida dos cafés de Viena - boémia, política, tertúlia e criativa. Entrei e fiquei-me por um dos mais famosos cafés bem perto da catedral no 1st District Innenstadt, Leopold Hawelka. Cartazes em história e encontros em posters pelas paredes. A parede amareleceu de tanto vapor de café, de tanto humor de conversa tardia e subversiva e tanto fumo de tabaco. Herren und Damen diz a placa que conduz aos sanitários - ah a língua de Goethe que tenho que aprender!
Janto pelo Pancho no 2nd District Leopoldstadt, um desses novos sítios muito europeus em que a comida confeccionada é deliciosa - comi um extraordinário burrito - mas em que tudo me parece fabricado para contentar. Menos mexicano mais europeu do que nada. A comida é temperada com um som que me atrevo a chamar de techno mex e a cerveja Ottakringer tinha que escorrer.
Dirijo-me então pela noite ao Fluc - bar e disco maior da cena alternativa da cidade. Bebo Schremser uma atrás da outra com garantia de devolução da tara em 50 cêntimos ao balcão. Tenho encontro imediato com ex da A. o que serviu apenas para causar um rápido passageiro mal estar. Ouço o som indie da cidade em Djs rock passando bandas autríacos de que gosto do som mas de que nada percebo. Fica uma ideia, a de trazer as festas Svennedisko para Lisboa. Não desço à disco pois pedem-me 10 euros e lá por cima, pelo bar, está-se tão bem.
Dia 2
Percorro o Naschmarkt e o Flohmarkt em sucessão de maravilhas de bugigangas orientais, bonecas aos pedaços e até passaportes da época comunista. O Naschmarkt é um belíssimo manto rendilhado de cheiros e cores de especiarias e especialidades turcas e um caldeirão de milhentas nacionalidades de vendedores e compradores. Estou por aqui já no 4th District, Wieden. Tempo para espreitar o histórico edifício de Olbrich, a Secession e Karlskirche.
Tento entrar no Rosa Lila Villa no 5th, Margareten mas está fechado. O frio sente-se em demasia e algumas portas não se mantêm abertas. Esta é uma conhecida lesben und schwulenhaus de Viena com programação cultural política e panfletária. Enfim.
Mais um café de cartilha, o Jelinek no 6th, Mariahilf. O atendimento é eslavo e pouco atencioso, mas chega-me a decoração de início de século para me maravilhar, isso e o café. Delicioso em contraste com o nevão atrás do vidro.
Janto pelo Yak & Yeti no 6th. Excelente comida nepalesa a servir uma noite aconchegada.
Deambulo depois de máquina fotográfica entre neve e edifícios do Ringstrasse, deixando sedimentadas as minhas pegadas em baixo relevo pelo manto branco afora. Poucas fotos vão sobreviver no entanto - os dedos congelavam em contacto com o mecanismo e eu não me sinto natural mexendo em câmaras com mão vestida a luva.
Dia 3
Outro café e este no 7th / 15th: West End Cafe que me iria marcar profundamente de todas as vezes que voltaria depois a Viena. É de notar e estranhamente que o serviço se foi tornando menos simpático com o aparecimento do sol em forte contraste connosco, os mediterrânicos. Cigarros dentro de portas é suficiente para me fazer feliz e sinto-me bem no meio de cartazes de concertos e milhentos jornais e panfletos austríacos que circulam pelas mesas onde se fala, se estuda e se espera. A melange aquece-me às três e quatro por dia nestes tempos de neve.
Cafe Merkur no 9th, Alsergrund para outra recarga de melange e para um delicioso Mohr im Hemd. Passam-nos panfletos comunistas do SPK e a Andreia disserta demoradamente sobre a sensaborona política austríaca.
Pela primeira vez patino sobre gelo no 1st Innenstadt, num ringue sempre improvisado por aqui no Inverno. Estranho o quente e alcoólico Glühwein, mas que serve o propósito, isso serve - retempera-me as vísceras. Percorro as galerias da distinta e antiquíssima Universität, onde se espelha o relicário de 8 prémios nobel saídos da faculdade vienense. Passamos em sucessão o Burgtheater e o Parliament.
Já pela noite dentro entramos no Nacht Asyl no 6th Mariahilf ,através de galerias e corredores e escadas subterrâneas saídas do meu imaginário de espionagem e da lei seca. O lugar é gerido por checos e dentro deste útero taberna ouvem-se sons da cidade e de um oriente europeu desconhecido. Consigo distinguir perfeitamente o adocicado do alemão austríaco em forte contraste com o bélico germânico falar. Bebo Bud checa e aprendo a dizer matraquilho em sotaque alemão: tischfussball.
Dia 4
Há muito que ver pelo digníssimo Museumsquartier no 1st ou 7th. Percorro sucessivamente e em vista o Mumok, o Kunsthalle e o Leopold Museum. Atavio-me de comida por aqui, no MQ Cafe e preparo-me para a noite.
Chega-se ao Arena no 3rd Landstrasse após percorrer um longo percurso de UBahn. Este aglomerado extravagante de edifícios destinados a concertos e cultura é colorido de graffiti por fora e por dentro revela-se em paisagens típicas de tribos urbanas desde a tatuagem regular até ao ambiente replicando o americano diner. No Arena Beisl bebo cervejas de que não me recordo o nome e enquanto espero pelo concerto a qual vim. Numa das salas interiores ouço uma banda austríaca medíocre que serve apenas para atapetar caminho aos The Wavves, estes sim, de recordar. Tocam canções rápidas de soft rock que puxam freneticamente o movimento muscular.
Dia 5
Desaguo outra vez pelo West End Cafe para outra melange e um prodígio de prato de espinafres do qual o nome será e se me recordo bem, Spinatnockerl.
Dia 6
Novamente pelo West End para novo round de Spinach versus melange, os hábitos tornam-se hábitos porque são deliciosos. Vejo e conheço a magazine Augustin, a versão austríaca da Cais.
Dirijo-me ao EKH no 10th Favoriten e encontro portas fechadas e em ensaios de bandas - escuto reggae e rock em diferentes salas dentro deste edifício que foi sede comunista e depois de muita atribulações comprado pelo município e cedido finalmente para Okupas e outros inúmeros projectos turcos e culturais.
Já não me recordo de ter estado pelo Wratschko no 7th Neubau, mas o meu diário diz-me que estive por lá e que bebi Muraeur e eu confio. Terei que voltar outra vez por aqui para apanhar esta memória.
Dia 7
Come-se pelo Maschu Maschu a melhor Falafel que alguma vez comi e só tinha é que repetir.
No Kunsthalle entro para a desilusão chamada Porn Identity, mas refresco-me e salvo-me vendo a colecção vídeo desta casa da arte vienense. A Andreia mostra-me o Top Kino Center mas não há filme com legendagem ou falar que me seja perceptível e passamos para outra.
Vamos até ao I:da no 15th Rodolfheim-Fünfhaus. Apanha-se reunião do colectivo artístico aqui instalado e descubro que se pode pagar o que se quiser pelo que servem por aqui ao balcão. Experimento a única cerveja alcoólica e que é temperada a sumo de limão. Acabo por traduzir um panfleto para português e penduro-o junto com a outra dezena de línguas no mostruário.

BRATISLAVA
Dia 8 e 9
De Viena a Bratislava é um salto em não tanto como uma hora de autocarro. Salto sobre o Danúbio e visito a antiga Pressburg - a tal pequena grande cidade que já foi capital dos húngaros e agora é a capital dos eslovacos. A cidade congestionou-se de neve e até os eléctricos caracoleiam pela ruas em branco da cidade.
Dá tempo para espreitar o único local da cidade com música mais alternativa, o Intergalaktika Obluda. Entre quatro paredes impregnadas a graffiti e cartazes de propaganda de esquerda ouve-se hard core. É irónico que no meio de tanto engajamento político os fumadores sejam obrigados a puxar do vício lá fora, bem no meio da neve. Aquecem-se batalhando entre si em bolas de neve, tentando proteger o cigarro das arremetidas.

PRAHA
Dia 9 e 10
Praha, a mítica Praga aparece dos vidros do autocarro em majestade soviética. Longos e enormes edifícios marcam o centro da cidade escondendo o seu passado medieval e barroco. É pena que seja demasiadamente turística e assim e pela primeira vez ouvi português desde que por aqui estou, em grupo burburinho com até bandeira portuguesa desfraldada.
Instalamo-nos num obscuro hostel afastado da cidade e divirto-me sacando instantâneos da janela sobre a cidade imersa em neblina fria através da qual as luzes dos campanários espreitam desesperadamente.
Tardiamente vamos a um bar sem interesse e depois outro ainda para recuperar a noite. Neste, o Carculca Bar, ganhamos sete sobre dois jogos de matraquilhos a um checo e a um americano desterrado voluntariamente nas montanhas deste país. Bebo Gambrinus e apercebo-me de que o dono do bar cria lesmas num terrário!
Mesmo ao lado pende sobre a rua o Dance Hall do Gehry. Que instrumento arrogante de uma arquitectura sem fundações nem fundamento sobre o lugar! Bem se dizia o Frank sobre si mesmo que era mais escultor que arquitecto.
Pelo segundo dia e já quase de saída espreita-se as vastas e assustadoras naves da National Gallery - misto de arquitectura da máquina - estilo internacional com um forte retoque socialista soviético. O acervo de arte é infinito e perco-me em deambulações de arte checa - de arte contemporânea checa - de instalações de Beuys e dos módulos Fluxus. Fico-me talvez nem por um quarto do exposto!
Pela manhã ao-deus-demos pela cidade esquadrinhando os seus tesouros de urbe orgulhosa do passado. Foi impossível entrar no cemitério judaico dada a fila de turistas (obviamente judeus) americanos. Deu para percorrer o bairro judaico e ver-lhe por fora as sinagogas e lojas bem protegidas por polícias de metralhadora cintada.
Lembrei-me pela noite de que tinha por aqui uma amiga e liguei-lhe. Pena que estava doente pois nem os checos perduram saudáveis nestes Invernos mas ficou a sugestão para o fim de noite enquanto esperávamos pelo comboio para Budapeste: o Cross Club. E que extraordinária surpresa - este club perde-se por 5 andares duplicados por diversos mezaninos e recobertos de artefactos metálicos que se transformam em tudo! O balcão é feito de rodas dentadas - as paredes preenchem-se de porcas e parafusos - esventraram-se camiões e indústrias para fazer os pilares e até as ventoinhas são um prodígio técnico-escultórico digno da visão negra e vanguardista de Giger!
Deambulamos pela estação até de madrugada e tira-se foto para recordar (é o post anterior, Fotomaton em Praha).

BUDAPEST
Dia 11
Budapest leva-nos uma rápida mas impressionante visita. Historicamente impressiona-me como este povo se impôs cultural e linguisticamente entre eslavos e germânicos ao ponto de ser co-capital com Viena do Império Austro-Húngaro. E mais ainda como se formou a cidade - desde três separados e fortes burgos, Buda, Pest e Obluda e ainda também por ostentar imagens de progresso considerável como o segundo mais antigo metropolitano após Londres e por possuir as tão vastas composições de eléctrico - que suponho sejam das maiores senão as maiores do mundo.
Kavé Break junto do Parliament para descobrir que a cultura do café é ainda mais dedicada e vivida do que em Viena e surpreendente é que o café aqui é idêntico ao português, ou seja, delicioso.
Budapest vive ainda mais desta suspensão entre mundos culturais que senti quando cheguei a Viena. Lado a lado convivem fortes comunidades católicas, muçulmanas, judaicas e protestantes num país - leia-se cidade - com uma enorme percentagem de população laica. Recordações do comunismo e lembrança do passado otomano que imprimiu a cultura dos banhos no dia-a-dia deste povo.
Dizem-me que Budapest é uma toda ela uma terma e acabo experimentando um desses banhos turcos onde me perco em barreiras linguísticas de gente que não quer saber falar outra língua que não esta estranha e ovni Fino-úgrica. Banho-me em águas quentes e chamo-lhe paraíso. A neve lá fora a cair não altera o hábito das gentes de se dirigirem diariamente aos banhos ou em pausa de almoço ou em fim de dia de trabalho.
WIEN
Dia 12
Volto a Viena de comboio desde Budapest - é extraordinário como são baratos os transportes aqui, por comparação! Sou levado até um edifício de Hundertwasser e à sua frente ainda me parece mais ridículo. Que falta de senso de tudo - que mescla caótica de tudo e de nada! Que leitura mais ridícula do que é um edifício! Que aberração feliz apenas para vender postais e copos a turistas incautos boquiabertos!
Pela noite e em sucessão vemos o Penn em Milk no Haydn, um dos poucos cinemas de Viena em língua original, sem dobragens; depois é sonoridade industrial e glam rock no Transporter e para alimentar a fome crescente um magnífico Durüm.
Dia 13
Volto ao Museum Quartier para percorrer o Leopold Museum, vejo assim Klimt, Robert Hammerstiel, Kokoschka, Barlach, Käthe Kollwitz, Coloman Moser e Egon Schiele! Que bálsamo de cultura!
Ao jantar não poderia ser mais dignamente e conscientemente enganado com uma galinha vegan no Vegetasia. O melhor - e credível - restaurante vegan onde entrei até agora.
Dia 14
Pelo último dia fui até a policiada Sinagoga mais antiga da cidade, numa rápida visita de meia hora. Passagem pelo Gheto judaico e oportunidade para degustar algumas iguarias Kosher entre judeus ortodoxos de peyote descontraidamente exposto.
E para fechar em beleza duas semanas de tratamento verdadeiramente imperial e fazendo esquecer em completo o Inverno, outra vez um saltinho até ao Museums Quartier para o deslumbramento com a obra de Nam June Paik no Mumok! Finalmente encontro-me com ele - extraordinário! Nos pisos superiores deu para ver uma muito comentada Maria Lassnig que pouco me impressionou (Uma Joana Vasconcelos austríaca? Não em obra mas em hype!).
Fizemos ainda um percurso pelo fraco Arkitektur Museum - do qual nada me acrescentou.
Só me faltava uma iguaria de qualidade que experimentei e desiludiu em Budapest mas que vim finalmente comer em qualidade em Viena: Langos! Excelente!
++
A Viena voltei mais duas vezes e a Bratislava mais uma. Viena vi-a das três vezes em três estações do ano bem diferentes - Inverno, Primavera e Verão, o que me deu uma ideia bem diferente de como as gentes desta cidade se comportam e de como interagem com o clima. Se no Inverno a vida era interior, na Primavera assisti ao conquistar dos parques e das esplanadas e, já no Verão e devido às temperaturas insuportáveis (apanhei um máximo de 36º) é ver os vienenses a esconderem-se à sombra dos imensos parques e a viajarem em massa até às praias do Danúbio para duvidosos Beach Clubs e para a jocosamente chamada de Copa Cagrana.
No Wien Beach Club tive uma amigável conversa com um tipo que - e atentem bem nisto - cultiva vinho para exportação nas encostas das montanhas ao redor de Viena!
Fiz entretanto diversas outras coisas que não tinha experimentado da primeira vez por falta de oportunidade ou por o clima não o permitir. Assim depois de ar asas a alguma intervenção urbana pelas ruas e experimentar o reputado Sachertorte fui ainda até ao Prater para uma experiência de três montanhas russas seguidas coroadas com um belíssimo Langos!
Até já Wien!

WIEN
Viajei já por três vezes até Viena este ano e encontrei-a por das três vezes que se separam no tempo de mais ao menos três meses entre cada visita, tão diferente de gentes, de cores e de formas que me pareceu três cidades distintas. Mas é Viena, essa belíssima cidade que foi a periclitante romana Vindobona, para se assumir religiosa católica medieval e depois orgulhosa capital do império - primeiro só seu e depois partilhado com os sempre destemidos húngaros.
Era essa vasta cidade imperial que dona de um império de inúmeros povos e línguas, multi e pluricultural muito além da tacanha lógica de um grande império germânico, que dominava a política europeia durante larga parte do Século XIX ao ponto de os seus exércitos e a sua influência serem apenas comparáveis às potências França, Inglaterra e Rússia. Os povos germânicos debatiam-se fragmentados em principados e até ao porvir da Prússia nunca foram um estado centralizado. A Espanha já era e Portugal nunca o fora a nível europeu. A Itália nunca existira ainda desde Roma. E a Turquia era demasiado não europeia. E Viena assumia-se então como ainda é, como ponto de passagem, de charneira, de chegada e de saída e de ligação entre o oriente e o ocidente europeus, cravada como jóia monumental entre uma imaginária linha divisória emocional entre eslavos e latinos e germânicos.
Cidade católica que não perdeu a sua base latina e sempre e ainda germânica também. É acima de tudo uma cidade musical e urbe pontilhada de palácios e templos. Viena, sempre romântica entre Alpes e Danúbio. O que segue a seguir não é mais que o catálogo do que fiz durante a minha primeira visita a Viena em Fevereiro de 2009. Estava-se então no Inverno e eu vi-a mais por dentro do que por fora de paredes, pois que o frio atacava em nevões e descia até 7 graus negativos. Voltei depois na Primavera e no Verão mas é do Inverno que me fica para sempre a primeira e mais demorada imagem desta cidade que também me conquistou para o seu seio.
Seguem os dias na cidade em formato rápido telegráfico :.
Dia 1
Visita à vasta St Stephans Cathedral, templo maior do catolicismo austríaco. Maravilhou-me o desenho no átrio em frente da catedral de uma basílica mais antiga. Bem ao estilo de Von Trier em Dogville, o que sobra desta é o contorno do seu volume, qual projecção no pavimento.
Tinha que penetrar na famosa cultura do café de Viena, na vida dos cafés de Viena - boémia, política, tertúlia e criativa. Entrei e fiquei-me por um dos mais famosos cafés bem perto da catedral no 1st District Innenstadt, Leopold Hawelka. Cartazes em história e encontros em posters pelas paredes. A parede amareleceu de tanto vapor de café, de tanto humor de conversa tardia e subversiva e tanto fumo de tabaco. Herren und Damen diz a placa que conduz aos sanitários - ah a língua de Goethe que tenho que aprender!
Janto pelo Pancho no 2nd District Leopoldstadt, um desses novos sítios muito europeus em que a comida confeccionada é deliciosa - comi um extraordinário burrito - mas em que tudo me parece fabricado para contentar. Menos mexicano mais europeu do que nada. A comida é temperada com um som que me atrevo a chamar de techno mex e a cerveja Ottakringer tinha que escorrer.
Dirijo-me então pela noite ao Fluc - bar e disco maior da cena alternativa da cidade. Bebo Schremser uma atrás da outra com garantia de devolução da tara em 50 cêntimos ao balcão. Tenho encontro imediato com ex da A. o que serviu apenas para causar um rápido passageiro mal estar. Ouço o som indie da cidade em Djs rock passando bandas autríacos de que gosto do som mas de que nada percebo. Fica uma ideia, a de trazer as festas Svennedisko para Lisboa. Não desço à disco pois pedem-me 10 euros e lá por cima, pelo bar, está-se tão bem.
Dia 2
Percorro o Naschmarkt e o Flohmarkt em sucessão de maravilhas de bugigangas orientais, bonecas aos pedaços e até passaportes da época comunista. O Naschmarkt é um belíssimo manto rendilhado de cheiros e cores de especiarias e especialidades turcas e um caldeirão de milhentas nacionalidades de vendedores e compradores. Estou por aqui já no 4th District, Wieden. Tempo para espreitar o histórico edifício de Olbrich, a Secession e Karlskirche.
Tento entrar no Rosa Lila Villa no 5th, Margareten mas está fechado. O frio sente-se em demasia e algumas portas não se mantêm abertas. Esta é uma conhecida lesben und schwulenhaus de Viena com programação cultural política e panfletária. Enfim.
Mais um café de cartilha, o Jelinek no 6th, Mariahilf. O atendimento é eslavo e pouco atencioso, mas chega-me a decoração de início de século para me maravilhar, isso e o café. Delicioso em contraste com o nevão atrás do vidro.
Janto pelo Yak & Yeti no 6th. Excelente comida nepalesa a servir uma noite aconchegada.
Deambulo depois de máquina fotográfica entre neve e edifícios do Ringstrasse, deixando sedimentadas as minhas pegadas em baixo relevo pelo manto branco afora. Poucas fotos vão sobreviver no entanto - os dedos congelavam em contacto com o mecanismo e eu não me sinto natural mexendo em câmaras com mão vestida a luva.
Dia 3
Outro café e este no 7th / 15th: West End Cafe que me iria marcar profundamente de todas as vezes que voltaria depois a Viena. É de notar e estranhamente que o serviço se foi tornando menos simpático com o aparecimento do sol em forte contraste connosco, os mediterrânicos. Cigarros dentro de portas é suficiente para me fazer feliz e sinto-me bem no meio de cartazes de concertos e milhentos jornais e panfletos austríacos que circulam pelas mesas onde se fala, se estuda e se espera. A melange aquece-me às três e quatro por dia nestes tempos de neve.
Cafe Merkur no 9th, Alsergrund para outra recarga de melange e para um delicioso Mohr im Hemd. Passam-nos panfletos comunistas do SPK e a Andreia disserta demoradamente sobre a sensaborona política austríaca.
Pela primeira vez patino sobre gelo no 1st Innenstadt, num ringue sempre improvisado por aqui no Inverno. Estranho o quente e alcoólico Glühwein, mas que serve o propósito, isso serve - retempera-me as vísceras. Percorro as galerias da distinta e antiquíssima Universität, onde se espelha o relicário de 8 prémios nobel saídos da faculdade vienense. Passamos em sucessão o Burgtheater e o Parliament.
Já pela noite dentro entramos no Nacht Asyl no 6th Mariahilf ,através de galerias e corredores e escadas subterrâneas saídas do meu imaginário de espionagem e da lei seca. O lugar é gerido por checos e dentro deste útero taberna ouvem-se sons da cidade e de um oriente europeu desconhecido. Consigo distinguir perfeitamente o adocicado do alemão austríaco em forte contraste com o bélico germânico falar. Bebo Bud checa e aprendo a dizer matraquilho em sotaque alemão: tischfussball.
Dia 4
Há muito que ver pelo digníssimo Museumsquartier no 1st ou 7th. Percorro sucessivamente e em vista o Mumok, o Kunsthalle e o Leopold Museum. Atavio-me de comida por aqui, no MQ Cafe e preparo-me para a noite.
Chega-se ao Arena no 3rd Landstrasse após percorrer um longo percurso de UBahn. Este aglomerado extravagante de edifícios destinados a concertos e cultura é colorido de graffiti por fora e por dentro revela-se em paisagens típicas de tribos urbanas desde a tatuagem regular até ao ambiente replicando o americano diner. No Arena Beisl bebo cervejas de que não me recordo o nome e enquanto espero pelo concerto a qual vim. Numa das salas interiores ouço uma banda austríaca medíocre que serve apenas para atapetar caminho aos The Wavves, estes sim, de recordar. Tocam canções rápidas de soft rock que puxam freneticamente o movimento muscular.
Dia 5
Desaguo outra vez pelo West End Cafe para outra melange e um prodígio de prato de espinafres do qual o nome será e se me recordo bem, Spinatnockerl.
Dia 6
Novamente pelo West End para novo round de Spinach versus melange, os hábitos tornam-se hábitos porque são deliciosos. Vejo e conheço a magazine Augustin, a versão austríaca da Cais.
Dirijo-me ao EKH no 10th Favoriten e encontro portas fechadas e em ensaios de bandas - escuto reggae e rock em diferentes salas dentro deste edifício que foi sede comunista e depois de muita atribulações comprado pelo município e cedido finalmente para Okupas e outros inúmeros projectos turcos e culturais.
Já não me recordo de ter estado pelo Wratschko no 7th Neubau, mas o meu diário diz-me que estive por lá e que bebi Muraeur e eu confio. Terei que voltar outra vez por aqui para apanhar esta memória.
Dia 7
Come-se pelo Maschu Maschu a melhor Falafel que alguma vez comi e só tinha é que repetir.
No Kunsthalle entro para a desilusão chamada Porn Identity, mas refresco-me e salvo-me vendo a colecção vídeo desta casa da arte vienense. A Andreia mostra-me o Top Kino Center mas não há filme com legendagem ou falar que me seja perceptível e passamos para outra.
Vamos até ao I:da no 15th Rodolfheim-Fünfhaus. Apanha-se reunião do colectivo artístico aqui instalado e descubro que se pode pagar o que se quiser pelo que servem por aqui ao balcão. Experimento a única cerveja alcoólica e que é temperada a sumo de limão. Acabo por traduzir um panfleto para português e penduro-o junto com a outra dezena de línguas no mostruário.

BRATISLAVA
Dia 8 e 9
De Viena a Bratislava é um salto em não tanto como uma hora de autocarro. Salto sobre o Danúbio e visito a antiga Pressburg - a tal pequena grande cidade que já foi capital dos húngaros e agora é a capital dos eslovacos. A cidade congestionou-se de neve e até os eléctricos caracoleiam pela ruas em branco da cidade.
Dá tempo para espreitar o único local da cidade com música mais alternativa, o Intergalaktika Obluda. Entre quatro paredes impregnadas a graffiti e cartazes de propaganda de esquerda ouve-se hard core. É irónico que no meio de tanto engajamento político os fumadores sejam obrigados a puxar do vício lá fora, bem no meio da neve. Aquecem-se batalhando entre si em bolas de neve, tentando proteger o cigarro das arremetidas.

PRAHA
Dia 9 e 10
Praha, a mítica Praga aparece dos vidros do autocarro em majestade soviética. Longos e enormes edifícios marcam o centro da cidade escondendo o seu passado medieval e barroco. É pena que seja demasiadamente turística e assim e pela primeira vez ouvi português desde que por aqui estou, em grupo burburinho com até bandeira portuguesa desfraldada.
Instalamo-nos num obscuro hostel afastado da cidade e divirto-me sacando instantâneos da janela sobre a cidade imersa em neblina fria através da qual as luzes dos campanários espreitam desesperadamente.
Tardiamente vamos a um bar sem interesse e depois outro ainda para recuperar a noite. Neste, o Carculca Bar, ganhamos sete sobre dois jogos de matraquilhos a um checo e a um americano desterrado voluntariamente nas montanhas deste país. Bebo Gambrinus e apercebo-me de que o dono do bar cria lesmas num terrário!
Mesmo ao lado pende sobre a rua o Dance Hall do Gehry. Que instrumento arrogante de uma arquitectura sem fundações nem fundamento sobre o lugar! Bem se dizia o Frank sobre si mesmo que era mais escultor que arquitecto.
Pelo segundo dia e já quase de saída espreita-se as vastas e assustadoras naves da National Gallery - misto de arquitectura da máquina - estilo internacional com um forte retoque socialista soviético. O acervo de arte é infinito e perco-me em deambulações de arte checa - de arte contemporânea checa - de instalações de Beuys e dos módulos Fluxus. Fico-me talvez nem por um quarto do exposto!
Pela manhã ao-deus-demos pela cidade esquadrinhando os seus tesouros de urbe orgulhosa do passado. Foi impossível entrar no cemitério judaico dada a fila de turistas (obviamente judeus) americanos. Deu para percorrer o bairro judaico e ver-lhe por fora as sinagogas e lojas bem protegidas por polícias de metralhadora cintada.
Lembrei-me pela noite de que tinha por aqui uma amiga e liguei-lhe. Pena que estava doente pois nem os checos perduram saudáveis nestes Invernos mas ficou a sugestão para o fim de noite enquanto esperávamos pelo comboio para Budapeste: o Cross Club. E que extraordinária surpresa - este club perde-se por 5 andares duplicados por diversos mezaninos e recobertos de artefactos metálicos que se transformam em tudo! O balcão é feito de rodas dentadas - as paredes preenchem-se de porcas e parafusos - esventraram-se camiões e indústrias para fazer os pilares e até as ventoinhas são um prodígio técnico-escultórico digno da visão negra e vanguardista de Giger!
Deambulamos pela estação até de madrugada e tira-se foto para recordar (é o post anterior, Fotomaton em Praha).

BUDAPEST
Dia 11
Budapest leva-nos uma rápida mas impressionante visita. Historicamente impressiona-me como este povo se impôs cultural e linguisticamente entre eslavos e germânicos ao ponto de ser co-capital com Viena do Império Austro-Húngaro. E mais ainda como se formou a cidade - desde três separados e fortes burgos, Buda, Pest e Obluda e ainda também por ostentar imagens de progresso considerável como o segundo mais antigo metropolitano após Londres e por possuir as tão vastas composições de eléctrico - que suponho sejam das maiores senão as maiores do mundo.
Kavé Break junto do Parliament para descobrir que a cultura do café é ainda mais dedicada e vivida do que em Viena e surpreendente é que o café aqui é idêntico ao português, ou seja, delicioso.
Budapest vive ainda mais desta suspensão entre mundos culturais que senti quando cheguei a Viena. Lado a lado convivem fortes comunidades católicas, muçulmanas, judaicas e protestantes num país - leia-se cidade - com uma enorme percentagem de população laica. Recordações do comunismo e lembrança do passado otomano que imprimiu a cultura dos banhos no dia-a-dia deste povo.
Dizem-me que Budapest é uma toda ela uma terma e acabo experimentando um desses banhos turcos onde me perco em barreiras linguísticas de gente que não quer saber falar outra língua que não esta estranha e ovni Fino-úgrica. Banho-me em águas quentes e chamo-lhe paraíso. A neve lá fora a cair não altera o hábito das gentes de se dirigirem diariamente aos banhos ou em pausa de almoço ou em fim de dia de trabalho.
WIEN
Dia 12
Volto a Viena de comboio desde Budapest - é extraordinário como são baratos os transportes aqui, por comparação! Sou levado até um edifício de Hundertwasser e à sua frente ainda me parece mais ridículo. Que falta de senso de tudo - que mescla caótica de tudo e de nada! Que leitura mais ridícula do que é um edifício! Que aberração feliz apenas para vender postais e copos a turistas incautos boquiabertos!
Pela noite e em sucessão vemos o Penn em Milk no Haydn, um dos poucos cinemas de Viena em língua original, sem dobragens; depois é sonoridade industrial e glam rock no Transporter e para alimentar a fome crescente um magnífico Durüm.
Dia 13
Volto ao Museum Quartier para percorrer o Leopold Museum, vejo assim Klimt, Robert Hammerstiel, Kokoschka, Barlach, Käthe Kollwitz, Coloman Moser e Egon Schiele! Que bálsamo de cultura!
Ao jantar não poderia ser mais dignamente e conscientemente enganado com uma galinha vegan no Vegetasia. O melhor - e credível - restaurante vegan onde entrei até agora.
Dia 14
Pelo último dia fui até a policiada Sinagoga mais antiga da cidade, numa rápida visita de meia hora. Passagem pelo Gheto judaico e oportunidade para degustar algumas iguarias Kosher entre judeus ortodoxos de peyote descontraidamente exposto.
E para fechar em beleza duas semanas de tratamento verdadeiramente imperial e fazendo esquecer em completo o Inverno, outra vez um saltinho até ao Museums Quartier para o deslumbramento com a obra de Nam June Paik no Mumok! Finalmente encontro-me com ele - extraordinário! Nos pisos superiores deu para ver uma muito comentada Maria Lassnig que pouco me impressionou (Uma Joana Vasconcelos austríaca? Não em obra mas em hype!).
Fizemos ainda um percurso pelo fraco Arkitektur Museum - do qual nada me acrescentou.
Só me faltava uma iguaria de qualidade que experimentei e desiludiu em Budapest mas que vim finalmente comer em qualidade em Viena: Langos! Excelente!
++
A Viena voltei mais duas vezes e a Bratislava mais uma. Viena vi-a das três vezes em três estações do ano bem diferentes - Inverno, Primavera e Verão, o que me deu uma ideia bem diferente de como as gentes desta cidade se comportam e de como interagem com o clima. Se no Inverno a vida era interior, na Primavera assisti ao conquistar dos parques e das esplanadas e, já no Verão e devido às temperaturas insuportáveis (apanhei um máximo de 36º) é ver os vienenses a esconderem-se à sombra dos imensos parques e a viajarem em massa até às praias do Danúbio para duvidosos Beach Clubs e para a jocosamente chamada de Copa Cagrana.
No Wien Beach Club tive uma amigável conversa com um tipo que - e atentem bem nisto - cultiva vinho para exportação nas encostas das montanhas ao redor de Viena!
Fiz entretanto diversas outras coisas que não tinha experimentado da primeira vez por falta de oportunidade ou por o clima não o permitir. Assim depois de ar asas a alguma intervenção urbana pelas ruas e experimentar o reputado Sachertorte fui ainda até ao Prater para uma experiência de três montanhas russas seguidas coroadas com um belíssimo Langos!
Até já Wien!
20090811
20090810
20090608
20090504
20090328
20090318
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I'v got published in the Guardian! Check the link : http://www.guardian.co.uk/travel/2009/mar/18/local-city-guides-travel-websites?page=all
Article about Museu Efémero from http://lisbon.spottedbylocals.com
Sweet!
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20090317
20090313
20090311
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20090227
20090110
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20080812
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Estou cada vez mais tentado a lançar-me por aí, palmilhando esse mundo todo que segue ainda oculto. Esse apelo da mudança é sucessivamente espicaçado por amigos e amigos que seguem por aí, esbatendo fronteiras, anulando distâncias, entregando-se a culturas e hábitos estranhos por aqui. Estoutro é de um grande amigo que está neste momento pelo Irão, iniciando algo que não sabe ainda se terá ainda fim:
http://www.emviagem.net
Grande abraço Johnny e excelente viagem! Apelo da Terra!
20080805
20080730
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O Vasco e a Alice começaram a sua viagem de vespa na 2ªfeira, largaram de LX e irão para Barça e depois Sicília! Toda a sorte do Mundo para vocês, quando chegarem haverá festão!!
Sigam a experiÊncia em :
http://movimentoacordalisboa.com/index.php?option=com_mojo&Itemid=75 (CLIQUEM EM ACORDA SICÍLIA)
Sigam a experiÊncia em :
http://movimentoacordalisboa.com/index.php?option=com_mojo&Itemid=75 (CLIQUEM EM ACORDA SICÍLIA)
20080728
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* CLIQUEM * e descubram participação de amiga, logo ali abaixo neste totem de cultura: a Ana M. Parabéns!!!!!!!!!
20080709
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